O Teatro Amazonas, o mais importante símbolo arquitetônico e cultural de Manaus, passou a integrar nesta segunda-feira (27) a Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O reconhecimento foi concedido durante a 48ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em Busan, na Coreia do Sul, e contempla, em uma inscrição seriada denominada “Teatros da Amazônia”, o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém.
A decisão representa muito mais do que um novo título. Pela primeira vez, a Amazônia brasileira passa a ser reconhecida internacionalmente também por seu patrimônio cultural monumental, e não apenas por sua biodiversidade. O conjunto arquitetônico foi considerado pela Unesco um exemplo único do encontro entre a riqueza produzida pelo Ciclo da Borracha, a arquitetura europeia do século XIX e a identidade amazônica expressa na arte, no urbanismo e na ocupação das duas capitais da região.
Um palácio da ópera no coração da floresta
Poucos edifícios no mundo produzem tanto impacto visual quanto o Teatro Amazonas.
Erguido em pleno coração da floresta tropical, sua construção começou em 1884 e a inauguração ocorreu em 31 de dezembro de 1896, durante o auge econômico proporcionado pela exportação da borracha. A obra pretendia demonstrar ao mundo que Manaus havia se tornado uma das cidades mais prósperas do planeta.
Na época, praticamente todos os materiais nobres vieram da Europa.
O mármore utilizado nas escadarias e pisos foi importado da Itália.
As estruturas metálicas chegaram da Inglaterra.
Os cristais vieram da França.
Os espelhos foram produzidos na Bélgica.
As madeiras nobres, como pau-brasil, jacarandá, mogno, pau-marfim e pau-ferro, foram trabalhadas por artesãos especializados.
O resultado foi um edifício que mistura referências do neoclassicismo, do ecletismo e da arquitetura francesa da Belle Époque com elementos inspirados na fauna, na flora e nos rios amazônicos.
O símbolo máximo dessa fusão é a cúpula revestida por aproximadamente 36 mil peças cerâmicas esmaltadas, formando um grande mosaico com as cores da bandeira brasileira.
Um interior pensado para impressionar
Entrar no Teatro Amazonas sempre significou entrar em um ambiente concebido para demonstrar riqueza.
O salão nobre recebeu mobiliário francês, lustres de cristal de Murano, pinturas decorativas e um refinamento raro mesmo entre teatros europeus da época.
A sala de espetáculos possui formato de ferradura, inspirado nos grandes teatros italianos, favorecendo a acústica natural.
O teto apresenta a célebre pintura “A Glorificação das Belas-Artes na Amazônia”, executada pelo artista italiano Domenico de Angelis. Vista do centro da plateia, a obra produz uma ilusão de perspectiva que faz parecer que a cúpula está aberta para o céu.
O palco foi equipado, ainda no século XIX, com maquinaria considerada moderna para sua época, permitindo rápidas trocas de cenários durante óperas e grandes espetáculos.
Muito além da ópera
Embora tenha sido concebido para receber companhias líricas europeias, o Teatro Amazonas transformou-se ao longo do século XX em um dos principais centros culturais do país.
Seu palco recebeu óperas clássicas, concertos sinfônicos, balés internacionais, festivais de teatro, apresentações de música popular brasileira e produções contemporâneas.
Desde 1997, tornou-se a principal sede do Festival Amazonas de Ópera, considerado um dos mais importantes da América Latina e responsável por recolocar Manaus no circuito internacional da música erudita.
Também abriga temporadas da Orquestra Amazonas Filarmônica, do Coral do Amazonas e do Corpo de Dança do Amazonas, formando um complexo artístico permanente que mantém o prédio vivo e em funcionamento durante praticamente todo o ano.
Ao longo das últimas décadas, artistas brasileiros e estrangeiros transformaram o teatro em parada obrigatória para concertos, espetáculos e gravações especiais.
O reconhecimento vai além do prédio – Na candidatura apresentada pelo Brasil, a Unesco não avaliou apenas os dois teatros.
O reconhecimento engloba dois conjuntos urbanos históricos:
- Teatro Amazonas e Largo de São Sebastião, em Manaus;
- Theatro da Paz e Praça da República, em Belém.
Segundo o dossiê brasileiro, esses espaços representam um modelo singular de urbanização da Amazônia durante o Ciclo da Borracha, quando as duas capitais procuravam afirmar sua importância econômica e política por meio da arquitetura monumental e da vida cultural intensa.
Vitória brasileira após divergência técnica
A aprovação ocorreu após uma discussão que marcou o processo de candidatura. O parecer técnico do Icomos, órgão consultivo da Unesco para patrimônio cultural, recomendava inicialmente que apenas o Teatro Amazonas fosse inscrito na lista.
O governo brasileiro, por meio do Iphan, defendeu que os dois teatros constituíam um único bem seriado, resultado de um mesmo contexto histórico, econômico e urbanístico.
O Comitê do Patrimônio Mundial acolheu esse entendimento e aprovou a candidatura conjunta dos Teatros da Amazônia.
Um novo capítulo para Manaus – O título amplia significativamente a projeção internacional da capital amazonense.
Além do prestígio simbólico, o reconhecimento costuma impulsionar o turismo cultural, fortalecer políticas permanentes de preservação e facilitar a cooperação internacional para conservação do patrimônio histórico.
Com a decisão desta segunda-feira, o Brasil passa a contar com 26 bens inscritos na Lista do Patrimônio Mundial, sendo 16 culturais, nove naturais e um misto. Para a Amazônia, o reconhecimento representa uma mudança de perspectiva: ao lado da floresta e de sua biodiversidade, o mundo passa a reconhecer oficialmente também a riqueza histórica, artística e arquitetônica construída por seus povos.
Fonte: Folha de São Paulo