Caso aumente as cadeiras na Câmara dos Deputados, os gastos com a bancada amazonense podem ultrapassar R$ 27 milhões por ano, conforme levantamento

Cada deputado federal do Amazonas custa, em média, mais de R$ 233 mil por mês aos cofres públicos. O valor, que inclui salário, verbas de gabinete, auxílio-moradia e cotas parlamentares, dimensiona o impacto financeiro da representação política do estado na Câmara dos Deputados e aumentará com as duas novas vagas na Casa Legislativa para o Amazonas.
Atualmente, o Amazonas tem oito deputados federais. Mas o número poderá chegar 10 caso o Senado aprove a redistribuição de vagas. A mudança elevará o custo total da bancada amazonense para mais de R$ 2,3 milhões por mês e cerca de R$ 27,9 milhões por ano, conforme levantamento feito TODA HORA.
O custo médio mensal por deputado amazonense soma R$ 233.153,65, considerando o salário bruto de R$ 46.366,19, o auxílio-moradia de R$ 4.253 (para quem não ocupa apartamento funcional), a cota parlamentar, que no caso do Amazonas é uma das mais altas do país, R$ 49.363,92; e a verba de gabinete, que chega a R$ 133.170,54. Esta última é usada para contratar até 25 assessores, com salários que variam entre R$ 1.548,10 e R$ 18.719,88. Os encargos trabalhistas desses servidores, como 13º, férias e auxílio-alimentação, são pagos à parte pela Câmara.
O valor da cota parlamentar varia de estado para estado, considerando o custo das passagens aéreas até Brasília. Estados mais distantes da capital, como o Amazonas, têm recursos mais altos, o que também pesa no cálculo final de despesas.
Além disso, os deputados têm direito a diárias para viagens oficiais: R$ 842 por dia em deslocamentos nacionais, US$ 391 em países da América do Sul e US$ 428 em demais destinos internacionais.
Privilégios e benefícios em debate
A ampliação das bancadas reacende o debate entre custo político e representatividade. Para o sociólogo Marcelo Seráfico, financiar as atividades parlamentares é legítimo, mas os privilégios se tornam injustificáveis quando beneficiam ex-deputados.
“O financiamento das atividades parlamentares não são, necessariamente, benefícios. Tornam-se privilégios quando transformam ex-parlamentares uma casta com direitos distintos daqueles de todo e qualquer trabalhador “, argumenta.
No mesmo sentido, o cientista político Raimundo Nogueira aponta compreender o alto custo dos parlamentares, considerando as dimensões continentais do país. Entretanto, ele considera haver excessos e defende que o exercício do mandato deve ser pautado pela simplicidade e pela ética, não pelo enriquecimento.
“A representação política num país continental como o Brasil não tem como ser barata, mas, no caso brasileiro, há excesso de gastos, com dispêndios injustificáveis. Deputados e Senadores, além do salário, recebem uma série de auxílios e benefícios, como o auxílio-moradia, verba de gabinete, cota parlamentar e assistência medica. Há, além disso, previdência social especial e a pensão vitalícia por morte. Deputados e Senadores são servidores públicos e, como no exercício do sacerdócio religioso, não devem exercer suas atividades parlamentares com vista ao enriquecimento próprio ou da família e amigos. Não é compatível com o exercício de atividades públicas a ostentação, mas a simplicidade e a parcimônia. Essa cultura só a cidadania militante pode construir”, apontou.
Passagens aéreas
Conforme dados disponibilizados no portal da transparência da Câmara, entre janeiro e a primeira quinzena de maio de 2025, os deputados federais do Amazonas gastaram R$ 1.220.756,09 da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), “Cotão”. Fatia expressiva da verba foi direcionada à compra de passagens aéreas: R$ 240.350,51.
O campeão de despesas no período foi o deputado Silas Câmara (Republicanos), com um total de R$ 199.332,01, sendo R$ 24.591,31 em passagens. Em seguida aparece Adail Filho (Republicanos), com R$ 198.772,55, dos quais R$ 27.775,70 foram destinados a viagens aéreas.
Outro destaque é o deputado Fausto Jr. (União Brasil), que somou R$ 158.022,22 em gastos até o início de maio, com R$ 49.651,86 direcionados exclusivamente a passagens. O deputado Amom Mandel (Cidadania), por outro lado, adotou um perfil de gastos mais enxuto. Seu total até abril foi de R$ 29.449,97, utilizado 100% na compra de passagens aéreas.
Aumento de deputados
O Plenário do Senado deverá votar na próxima semana o aumento do número de deputados federais (PLP 177/2023). A proposta, que atende a uma determinação do Supremo Tribunal Federal de atualizar o número de parlamentares de acordo com o último censo do IBGE, cria 18 novas vagas para os estados do Amazonas, Ceará, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Santa Catarina, Rio Grande do Norte e Paraná.
Diversos senadores, no entanto, anunciaram voto contrário ao projeto alegando aumento de despesas. Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) argumentou que a proposta é um contrassenso em meio à reação do próprio Congresso Nacional contra a elevação da carga tributária anunciada recentemente.
Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, declarou que o orçamento da Câmara dos Deputados já incluiu as despesas com os novos parlamentares, que só serão eleitos em 2026 para assumirem o mandato no ano seguinte.